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2025 provavelmente ficará marcado como o ano em que a remoção de carbono perdeu o brilho do Vale do Silício, nos EUA, e enfrentou um ajuste de contas de mercado. Depois de anos de apostas ambiciosas e grandes visões de engenharia, o lado da demanda passou a fazer uma pergunta direta e simples: isso vai, de fato, ser entregue?
Foi o ano em que os compradores pararam de adquirir promessas e começaram a comprar toneladas, e os dados, contratos e manchetes refletem essa virada.
1. Biochar e rotas de biomassa preencheram o vazio da entrega
Em 2025, o panorama da remoção de carbono inclinou-se para a confiabilidade. O biochar, antes um nicho, tornou-se a opção padrão para compradores corporativos.
Dados da CDR.fyi mostram que o biochar respondeu pela maior fatia dos volumes de remoção de carbono efetivamente entregues, com milhões de toneladas sob contrato até meados de 2025. Os compradores praticamente esgotaram a oferta, com cerca de 93% do suprimento industrial de biochar para 2025 já comprometido com empresas.
O apelo do biochar é direto: custo relativamente baixo e entrega concreta no curto prazo, um antídoto para anos de espera por plantas de captura direta de ar que ainda não saíram do papel.
Compradores corporativos também firmaram grandes contratos com soluções de remoção biogênica, como bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS), rotas que utilizam infraestrutura industrial existente para capturar CO₂ proveniente de fontes de biomassa.
Em abril, a Microsoft assinou o maior acordo de remoção permanente de carbono já registrado até hoje: um contrato de 6,75 milhões de toneladas, com duração de 15 anos, com a AtmosClear, desenvolvedora de projetos de BECCS. O projeto, a ser construído no Porto da Grande Baton Rouge, na Louisiana, capturará CO₂ biogênico da combustão de biomassa e o armazenará de forma permanente no subsolo.
A mensagem do mercado foi inequívoca: rotas de biomassa de baixo custo e prontas para uso estão superando caminhos de engenharia mais caros e de longo prazo.
2. Entregabilidade superou permanência na visão dos compradores
Houve uma mudança perceptível na forma como as empresas passaram a pensar a remoção de carbono. O discurso sobre permanência de 10 mil anos, comum em círculos acadêmicos, cedeu lugar a uma exigência mais pragmática: mostre a tonelada entregue neste ano.
“O mercado parou de recompensar ambição sem execução. Os compradores querem a maior chance de entrega ao menor custo e estão menos interessados em soluções que não conseguem oferecer isso”, afirma Alexander Rink, CEO da CDR.fyi, plataforma de monitoramento de mercado.
As empresas não são contrárias a soluções duráveis, mas em um cenário de orçamentos apertados e crescente pressão por relatórios de emissões, a certeza venceu a longevidade.
3. A Microsoft ainda domina o mercado de remoção durável de carbono e, sem ela, o crescimento estagnou
Uma tendência clara do mercado de remoção de carbono em 2025 foi a concentração contínua da demanda. A Microsoft não é apenas uma grande compradora, ela define, na prática, a escala do mercado de remoção durável de carbono.
No segundo trimestre de 2025, o total contratado de remoção durável de carbono atingiu um recorde de 15,48 milhões de toneladas. Segundo a CDR.fyi, mais de 14,5 milhões de toneladas, cerca de 94%, vieram exclusivamente da Microsoft. Sem a empresa nos dados, o restante do mercado contratou, em conjunto, menos de um milhão de toneladas.
Sem a Microsoft, as vendas de créditos de remoção durável de carbono praticamente estagnaram. Outras empresas participam, mas em escala muito menor. Na prática, o crescimento destacado hoje reflete a ambição de uma única companhia, e não uma adoção ampla e distribuída pelo mercado.
A Microsoft ancora o mercado e dá confiança para que fornecedores invistam, mas até que mais grandes compradores entrem em cena, a remoção de carbono permanece dependente de um único sinal de demanda, em vez de um mercado diversificado e autossustentável. Isso levanta uma questão inevitável: o que acontecerá com o mercado de remoção de carbono quando a Microsoft decidir que já comprou o suficiente para cumprir suas metas?
4. O Carbon Removal XPRIZE impulsionou o ano de virada do intemperismo acelerado de rochas
Uma das forças mais discretas, porém mais consequentes, a moldar a remoção de carbono em 2025 foi a conclusão do Carbon Removal XPRIZE, no valor de US$ 100 milhões, o equivalente a cerca de R$ 500 milhões. A competição de quatro anos não foi concebida apenas para coroar um vencedor, mas para impulsionar toda uma categoria. E em nenhum lugar isso ficou tão evidente quanto no intemperismo acelerado de rochas.
Em abril, o XPRIZE concedeu seu prêmio principal de US$ 50 milhões, cerca de R$ 250 milhões, à Mati Carbon, reconhecendo sua abordagem de acelerar a mineralização natural por meio da aplicação de rochas basálticas finamente trituradas em solos agrícolas.
Ao longo de quatro anos, o XPRIZE forçou as equipes a sair da teoria e entrar na prática, construindo cadeias de suprimento, testando abordagens de monitoramento e verificação em campo e provando que a remoção de carbono pode operar em escala real, em ambientes reais.
Quando a competição chegou ao fim, o intemperismo acelerado de rochas deixou de ser um caminho especulativo e passou a ser uma opção crível e passível de investimento.
Essa mudança também começou a aparecer no comportamento de compra das empresas. Em 2025, a Microsoft ampliou seu portfólio nessa área com um acordo de remoção de 28.900 toneladas de carbono com a UNDO, apoiando projetos no Canadá, onde rochas silicáticas trituradas são aplicadas em áreas agrícolas para remover CO₂ de forma permanente e, ao mesmo tempo, melhorar a saúde do solo.
5. Turbulência política colocou a captura direta de ar na defensiva
Se o sentimento de mercado explica parte do reajuste da remoção de carbono em 2025, a política explica o restante.
Nos Estados Unidos, a administração Trump provocou um choque no segmento mais intensivo em capital do setor: a captura direta de ar. No meio do ano, o Departamento de Energia dos EUA decidiu rescindir ou congelar bilhões de dólares em financiamentos previamente anunciados para projetos de grande escala de captura de carbono e polos de captura direta de ar, uma reversão que abalou desenvolvedores e investidores.
O financiamento do programa emblemático de polos de captura direta de ar, originalmente apoiado pela Lei Bipartidária de Infraestrutura, foi efetivamente interrompido, deixando projetos no Texas e na Louisiana em situação de incerteza.
Quando o apoio federal se mostrou instável, a economia básica da captura direta de ar, já pressionada por custos elevados e prazos longos, tornou-se ainda mais difícil de justificar. Desenvolvedores pausaram contratações ou promoveram demissões, adiaram compras e revisaram discretamente seus planos de crescimento.
A Carbon Capture Inc., uma das empresas mais conhecidas de captura direta de ar na América do Norte, anunciou que se mudaria para o Canadá, citando um ambiente regulatório mais estável e apoio de longo prazo mais claro para a remoção de carbono.
A remoção de carbono por engenharia não deixou de funcionar de repente em 2025. Mas tornou-se mais arriscada. E em um ano em que as equipes de compras já priorizavam entregabilidade e certeza no curto prazo, o apoio político instável tornou projetos de captura direta de ar, intensivos em capital, ainda menos atraentes.
O resultado foi uma mudança silenciosa, porém relevante: capital e contratos migraram para rotas capazes de escalar sem depender de apoio federal contínuo. Biochar, BECCS e outras soluções baseadas em biomassa se beneficiaram não por serem perfeitas, mas por estarem menos expostas a oscilações políticas.
Na remoção de carbono, assim como na energia de forma mais ampla, 2025 reforçou uma lição antiga: tecnologia não escala no vácuo. Ela escala dentro de ambientes regulatórios. Quando esses ambientes vacilam, até a engenharia mais sofisticada tem dificuldade de se sustentar.
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